terça-feira, 8 de março de 2011

A ESTRELA DE DAVID


  Seu reconhecimento como símbolo exclusivamente judaico é um fato relativamente recente já que, na Antigüidade e mesmo durante a Idade Média, várias civilizações além da nossa usavam o hexagrama como símbolo místico ou puramente decorativo.

MONTE SINAI: O ENCONTRO ENTRE D'US E ISRAEL

No terceiro mês de saírem os Filhos de Israel da terra do Egito, neste dia chegaram ao deserto do Sinai e acamparam no deserto, e acampou ali Israel em frente ao monte (Êxodo 19:1).

Amós e a emergência do universalismo profético judaico

sábado, 5 de março de 2011

Destruída há quatro mil anos, "SODOMA" se tornou símbolo de perversão e decadência moral. E seu destino vem suscitando temor e curiosidade.

Antes de ser destruída, a cidade bíblica estava localizada na planície da Jordânia, área em forma de semicírculo, extremamente fértil, na fronteira sudeste do território canaanita. As referências bíblicas à Sodoma (Sdom, em hebraico) estão principalmente no livro Gênese e sua queda é relatada nos capítulos 18-19. Mas, é também citada em Deuteronômio, no Livro de Jó e no Talmud, assim como por nossos profetas. O controvertido historiador Flávio Josefo (37-100 desta Era), a menciona em sua obra. Sdom aparece pela primeira vez no capítulo Lech Lecha, quando Lot, sobrinho de Abraão, estabeleceu-se no vale do Jordão, escolhendo a cidade para lá estabelecer sua família. Assim a Torá a define: "E os homens de Sodoma eram maus e pecadores contra o Eterno" (Gênese 13-13).
Desde a primeira menção, é identificada como o epítome da crueldade e perversão. Sodoma era a antítese de tudo o que Abraão acreditava e simbolizava. A hospitalidade, virtude das mais praticadas por nosso patriarca, lá era proibida. Os sodomitas odiavam os forasteiros, aos quais não ofereciam hospitalidade, submetendo-os a abusos sexuais. A caridade era considerada crime grave, sendo executado quem a praticasse. Conta o Midrash que a lei determinava que quem alimentasse um pobre morreria na fogueira. Mas Plotit, filha de Lot, teve destino ainda pior. Certa vez, viu na rua um mendigo e decidiu alimentá-lo. Quando os habitantes da cidade perceberam o que Plotit fazia, prenderam-na, tiraram suas roupas, lambuzaram seu corpo com mel e puseram-na sobre a muralha da cidade, para que morresse picada pelas abelhas (Sanhedrin 109).
Relata a Torá que D'us ouviu o "clamor" das vítimas das iniqüidades cometidas pelos habitantes de Sodoma e da vizinha Gomorra. O Eterno revela, então, a Abraão, a Sua intenção de destruir completamente as duas cidades. O patriarca tenta intervir junto ao Senhor, para as salvar. Pede ao Todo Poderoso que tenha consideração com os Justos que lá residiam. D'us lhe promete que, se houvesse ao menos dez Justos em Sodoma, salvaria toda a cidade. Porém, na cidade não havia um Justo sequer...
E, embora o Todo Poderoso não tenha salvo a cidade, poupou Lot e sua família. E isto ocorreu em grande medida pelos méritos de seu tio, Abraão, mas também porque, mesmo após morar entre sodomitas, Lot ainda guardava em si o espírito da hospitalidade que aprendera com nosso patriarca. Quando os habitantes da cidade descobrem que ele acolhera dois "forasteiros" em sua casa, enfurecidos exigem que os entregue. Mas Lot sai em defesa de seus hóspedes.
Os estrangeiros, que, na realidade, eram anjos enviados por D'us para destruir a cidade, ordenaram a Lot que, com toda a sua família, deixasse imediatamente aquele lugar condenado. E, ao amanhecer, levam-no, com a mulher e duas filhas solteiras, para fora da cidade, alertando: "Sequer olhem para trás".
Assim que Lot e seus familiares partem, D'us faz chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Não obedecendo às ordens dos anjos, a mulher de Lot se virou para olhar o que acontecia na cidade condenada. A punição veio como um raio: foi transformada em estátua de sal. De acordo com o Talmud, este sal chama-se Melach Sedomit, sal sodômico. Josefo, em sua obra, afirma que durante sua vida, o pilar de sal ainda podia ser visto.
De manhã, quando Abraão voltou ao lugar onde D'us lhe aparecera, viu a destruição que se abatera sobre Sodoma e demais cidades vizinhas. Densa fumaça ocultava o vale e, as chamas rapidamente consumiam a terra. Uma chuva de sal completava a catástrofe (Deut.29:22 ). Na planície queimada por enxofre e sal, a terra tornara-se estéril, sendo que lá "nada podia ser plantado e nenhuma vida brotaria". (Deut. 29:22). Quando a devastação se completou, um enorme lago de sal e betume espalhava-se a leste do deserto de Judá, em hebraico conhecido como o Yam Hamelach, o mar de sal. Na antigüidade, foi também chamado de Hayam Hacadmoni, o antigo mar;Yamá shel Sdom, mar de Sodoma; e, ainda, Yam Ha'aravá, mar do vale do Aravá. O nome Mar Morto somente surgiu após o advento do Cristianismo, atribuído pelos monges cristãos, pelo espanto causado pela aparente ausência de qualquer forma de vida em suas águas.
Hoje, o Mar Morto, cujas águas contêm 33% de sal, quantidade dez vezes superior à encontrada no Mar Mediterrâneo, é considerado uma das maravilhas do mundo. É um grande lago represado entre colinas, com 76km de comprimento por 18km de largura, e tem, em sua parte mais funda, 400m de profundidade. Suas margens, a 396m abaixo do nível do mar, são o ponto seco mais baixo do mundo. Em seu redor, espalham-se montanhas de sal naturalmente esculpidas em forma de chaminés e cavernas. Entre estas, pode-se distinguir perfeitamente uma escultura em forma de cogumelo, que, segundo antigas tradições, seria a estátua da mulher de Lot.
A região
A exploração econômica da região já se iniciara desde o tempo dos nabateus, que vendiam betume. (o depósito de lama que se acumulava no fundo do lago) aos egípcios, que o utilizavam para embalsamar seus mortos. Este comércio que se estendeu até a era romana.
Flávio Josefo, na História da Guerra Judaica, escreve: "... região de Sodoma, território outrora próspero por suas colheitas e pela riqueza de suas diversas cidades, mas, atualmente, inteiramente queimado. Diz-se que a impiedade de seus habitantes lhes valeu serem abrasados pelo raio... ainda lá existem traços do Fogo Divino e se podem ver vestígios de cinco cidades... A narração lendária sobre a região de Sodoma é, pois, plenamente confirmada por aquilo que se vê".
Sobre o Mar Morto, que Josefo chama de "lago de asfalto", ele escreve: "Salgado e estéril.... sua água faz boiar os objetos, por mais pesados que sejam...". Os gregos falavam com insistência em gases venenosos que se desprendiam por toda a parte nesse mar, enquanto os árabes diziam que, há muito, nenhuma ave conseguia sobrevoar de uma margem a outra. Diziam que, ao tentar cruzá-las, as aves se precipitavam subitamente n'água, já sem vida.
Mas, onde realmente se localizava Sodoma? Com base em informações contidas na Torá e nas várias formações de sal da região, os arqueólogos têm tentado, em vão, definir sua localização exata. Apesar de alguns terem centrado suas buscas ao norte do Mar Morto, a maioria acredita que as antigas Sodoma e Gomorra se situassem ao sul do lago, em uma área de formação geológica mais recente do que o restante da região. A tese da posição geográfica ao sul parece ser sustentada também por uma tradição local, como mostra o nome árabe da montanha de sal, Jebel Usdum, ou seja, Montanha de Sodoma, no extremo sudeste do mar Morto. A montanha tem 10km de comprimento, 5km de largura e 30m de espessura. Embora esteja coberta por uma camada de terra de alguns metros de espessura, o restante de sua composição é sal sólido.
História moderna
No século XX, o nome Sodoma foi dado a um sítio industrial a sudeste do Mar Morto. Desde o início do século, engenheiros que visitavam o local e, até mesmo, Theodor Herzl, logo percebem o enorme potencial do Mar Morto para a extração mineral, mediante o uso da energia solar. A atual cidade de Sdom foi fundada em 1937. Logo depois, construiu-se em Kalia, no extremo norte do Mar Morto, plantas de potassa para constituir uma filial da Palestine Potash Co. À época, não havia estradas que ligassem o local à cidade; a comunicação era feita através de pequenos barcos, que atravessavam o Mar Morto.
Em 1947, o plano de Partilha da Palestina elaborado pelas Nações Unidas incluía Sodoma, ou Sdom, dentro das fronteiras do futuro Estado de Israel. No início da Guerra da Independência, em 1948, Kalia passou para o controle da Legião Árabe, ficando Sdom totalmente isolada de Israel. A única maneira de enviar suprimentos à cidade era por via marítima ou aérea. Durante seis meses, de agosto a dezembro de 1948, víveres foram enviados em pequenos aviões, até que a área foi libertada por uma unidade das Forças de Defesa de Israel.
A estrada que finalmente uniu Beersheva a Sodoma foi terminada em 1952 e, dois anos mais tarde, a empresa estatal Dead Sea Works Ltd., de produtos químicos, pôde iniciar atividades. Na época, a região era uma das poucas fontes de fertilizantes à base de potassa para a África e Ásia. Atualmente constitui o quarto produtor mundial e fornecedor de produtos derivados do mineral.
A região abriga atualmente outras indústrias do setor de potassa, fosfato e sal. Em 1955 foi inaugurada a companhia Dead Sea Bromine, que figura entre as maiores produtoras mundiais de brometo. Em 1996, a empresa alemã Volkswagen AG e a israelense Dead Sea Works Ltd. anunciaram um investimento conjunto de US$ 600 milhões, em um projeto de instalação de uma usina para extração de magnésio, no Mar Morto.
Apesar da aridez que castiga a paisagem local, o Keren Kayemet LeIsrael (KKL), valendo-se de tecnologia de ultimíssima geração, está implantando, na região em torno de Sodoma, uma atividade econômica altamente rentável e nova para o local: a piscicultura.
Edição 51 - Revista Moreshá, Dezembro 2005 

As 10 pragasdo Egito 4

A décima praga: a morte dos primogênitos egípcios
A décima e última praga é amplamente anunciada por Moshê, que alerta o Faraó que, por volta da meia-noite, D'us, Ele Próprio, passaria sobre o Egito e golpearia todos os primogênitos - filhos de homens ou de animais.
Era o clímax de todas as anteriores. Seu aspecto de punição é imensamente mais severo do que o das outras, cujo principal objetivo era incutir nos egípcios a fé em D'us. Durante esta praga, D'us, Juiz Supremo, executou o castigo, "medida por medida", pelo decreto de extermínio que o Egito lançara contra o Povo Judeu. O Faraó, que emitira a ordem de que todo menino judeu fosse afogado no Nilo, e os egípcios, que a haviam executado, presenciaram a morte de seus primogênitos na noite que antecedeu o Êxodo. À meia-noite, todos os primogênitos egípcios, inclusive o filho do Faraó, faleceram a um só tempo. A única exceção foi o Faraó, ele próprio um primogênito. D'us poupou-lhe a vida porque, às margens do Mar de Juncos, no episódio da abertura do mar, ele ainda iria testemunhar, uma vez mais, o ilimitado poder de D'us. (V. Morashá - edição 48 - abril de 2005).
Naquela fatídica noite nenhum judeu faleceu; D'us postergou até mesmo a morte dos que haviam terminado seu tempo na Terra. Demonstrava assim, mais uma vez, a clara distinção entre os oprimidos e os opressores. Naquela noite, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão da Justiça Divina e tiveram a certeza que D'us Misericordioso os libertara da escravidão.
Uma dimensão mística das Dez Pragas
A Cabalá revela que a alma humana é composta de dez pontos de energia - dez características - que correspondem aos dez fluxos de Energia Divina, denominados de Sefirot, na Cabalá. Ao ser humano foi dado o livre arbítrio, a opção de utilizar estas características tanto para o bem quanto para o mal.
O antigo Egito - sociedade baseada na idolatria, imoralidade e total falta de respeito pela vida e dignidade humana - representa a corrupção de cada uma das Dez Sefirot. Por este motivo, foram dez as pragas que atingiram o país. As calamidades foram fruto inevitável da crueldade egípcia, conseqüências espirituais que se manifestaram fisicamente. Por outro lado, ensina a Cabalá, os Dez Mandamentos, outorgados 50 dias após o Êxodo do Egito, no Monte Sinai, são o "antídoto" das Dez Pragas. Pois se as Pragas refletiram a perversão dos dez atributos da alma humana, os Dez Mandamentos refletem sua retificação espiritual.
O relato das Dez Pragas é fonte de inúmeras lições espirituais. A principal é que a corrupção espiritual, a maldade e a injustiça criam entidades espirituais negativas que acabam voltando-se contra seu próprio criador. Em contraponto, os Dez Mandamentos nos revelam que a ligação com D'us, a bondade e a justiça são o caminho para que a alma humana se manifeste em toda a sua harmonia e esplendor, canalizando bênçãos naturais e sobrenaturais para este nosso mundo físico.
Bibliografia
· Hagadá de Pessach, com comentários do Talmud e literatura rabínica, Fundação J. Safra, 2007
· The Call of the Torah - Shemot, Rabbi Elie Munk, Artscroll Mesorah Series.
· The Sepharadic Heritage Haggadah, The Sutton Edition, Rabinos Elie Mansur, David Sutton e Hillel Yarmove, Art Scroll Sepharadic Mesorah Series, 2006

As 10 pragasdo Egito 3

Uma terceira praga castiga o Egito, após nova recusa do Faraó em se dobrar perante D'us. Após Aharon ter golpeado o pó com o cajado, seguindo a ordem Divina, a terra de todo o Egito se transforma em piolhos e pequenos insetos, que picam mortalmente os egípcios e seus animais. Foi no decorrer desta terceira praga que os feiticeiros egípcios alertam seu rei que Moisés e Aharon não eram magos nem tampouco eram "as ocorrências" fruto de algum tipo de feitiçaria. Eram enviados de D'us. Segundo o Midrash, foi no final dessa praga que os judeus pararam de trabalhar para os egípcios.
Esta primeira série de pragas foi lançada por Aharon e não por Moshê, porque este tinha um débito de gratidão com as águas do Nilo e com a terra do Egito. Quando Moisés nasceu, sua mãe, para salvá-lo do édito infanticida egípcio, colocou-o numa cesta sobre o rio e as águas o mantiveram vivo, conduzindo-o até Batia, filha do Faraó, que o resgatou. A terra também o ajudou, pois encobriu o corpo de um algoz egípcio, que Moshê matara para salvar a vida de um judeu. D'us, portanto, incumbiu Aharon de lançar as primeiras três pragas, porque, como Ele próprio afirma, "as águas que cuidaram de ti quando foste lançado ao Nilo...e a terra que veio em teu auxílio quando mataste o egípcio...não é justo que por ti sejam amaldiçoadas".
A segunda série: animais selvagens, peste e sarna
Iniciando o segundo grupo, a quarta praga é precedida pela declaração Divina: "Para que saibas que sou o Eterno no meio da terra" ( 8:18). Por todo o Egito, bandos de animais selvagens, cobras e escorpiões atacam os egípcios, mesmo dentro de seus lares, e destroem tudo que encontram pelo caminho. Mas, como D'us afirmara, "Separarei nesse dia a terra de Goshem", nenhum destes animais adentrou na terra onde habitavam os judeus. Segundo Rashi, numa clara demonstração de Seu Poder, mesmo os judeus que estavam em outros lugares não foram atacados.
A quinta praga é uma peste fatal que mata os animais domésticos dos egípcios que pastavam nos campos, inclusive os carneiros, que eram considerados um de seus deuses. No entanto, nenhum animal de qualquer judeu foi atingido. Segundo Rabi Alkabetz, a partir daquele momento o sofrimento egípcio se tornou tão intenso, que até o Faraó já estava disposto a ceder. D'us, no entanto, endureceu-lhe o coração, pois queria que os Filhos de Israel vissem a totalidade e abrangência de Sua Força e aprendessem a Nele ter fé.
A sexta praga que atinge os egípcios e seus animais, geralmente chamada de sarna, era na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico. Mesmo os feiticeiros egípcios foram atingidos pela doença.
Esta segunda série de pragas foi uma clara demonstração de que a Providência Divina, a Mão de D'us, está presente em tudo o que acontece. O fato de nenhum judeu ter sido atingido era mais uma prova de que D'us controla tudo que ocorre no mundo, inclusive o comportamento dos animais e as aflições físicas.
O terceiro grupo: granizo, gafanhotos e escuridão
O objetivo desta última série de pragas, anunciado pela declaração "Para que saibas que não há ninguém como Eu, em toda a Terra" (9:14), foi demonstrar o infinito poder de D'us. Um outro propósito para a ação Divina é revelado por Moisés, quando informa ao Faraó que, apesar de merecer morrer, sua vida fora poupada para que ele reconhecesse a grandeza de D'us Único e Verdadeiro. "Para que Meu Nome seja anunciado em toda a terra" (9:16), afirma D'us. E para que fosse transmitido, de geração em geração, o relato do que estava ocorrendo no Egito, ou seja, a manifestação explícita de Sua Vontade.
Na sétima, uma violenta tempestade de granizo assola o país. O mundo nunca vira algo igual. Muito menos o Egito, onde, devido à escassez de chuva, este fenômeno meteorológico era desconhecido. Havia um aspecto sobrenatural nesta praga: o granizo vinha acompanhado de fogo. Dois elementos opostos - o fogo e a água - conciliados a fim de mostrar a Onipotência Divina. Antes da sétima praga, D'us alertou os egípcios para procurarem abrigo durante a chuva de granizo, pois, nenhum ser vivo e nenhum vegetal escapariam incólumes. E os que acreditaram nas palavras de Moisés procuraram abrigo, tanto para si como para seu gado.
Na oitava praga, um vento do leste trouxe em seu bojo nuvens de gafanhotos, que escureceram os céus. Os insetos devoraram cada folha verde que, porventura, sobrevivera ao granizo e às pragas anteriores. Invadiram os lares e os campos egípcios e trouxeram ruína total ao país, já praticamente destruído pelas catástrofes anteriores. Pela primeira vez, o Faraó reconhece seus erros, mas ainda permaneceu firme na determinação de não deixar partirem os judeus.
Quando a nona praga se abateu sobre o Egito, uma "escuridão tangível", impenetrável, tão densa que apagava qualquer luz, envolveu o país por seis dias. Mais uma vez, um fenômeno natural - a escuridão - se manifestou de forma sobrenatural, pois enquanto nos lares egípcios não era possível acender uma luz, nos lares judaicos, havia luz abundante. Os egípcios, tomados de pavor, permaneceram imóveis onde se encontravam. Ao descrever a praga, a Torá menciona "escuridão e trevas": escuridão no sentido físico e trevas no sentido espiritual. A Torá nos ensina que esta praga refletia o egoísmo prevalente no Egito: "Não via nenhum homem a seu irmão", pois cada egípcio via somente a si próprio; assim aconteceu durante a praga da escuridão, ninguém se mexeu para socorrer o outro, pois a ajuda mútua não fazia parte de sua visão de mundo.

As 10 pragasdo Egito 2

Por que dez?
As Dez Pragas castigaram o Egito durante praticamente um ano, iniciando-se no fim do mês de Iyar e terminando apenas no dia 15 de Nissan. As primeiras sete pragas constam no Livro do Êxodo, na porção Va'eirá (7:19-9:35), e as últimas três na porção Bô (10:1-12:33).
A seqüência de eventos que antecedem as pragas tem início quando o Faraó se recusa a obedecer à ordem Divina transmitida por Moshê e Aharon: "Envia Meu povo para que festejem para Mim no deserto" (5:2). O rei do Egito responde com insolência: "Quem é o Eterno para que eu escute Sua voz e deixe partir o Povo de Israel? Não conheço o Eterno e também não despacharei Israel" (5:2). E, num gesto desafiador, decide afligir ainda mais os Filhos de Israel. Ordena a seu povo que não mais entreguem aos judeus a palha necessária para a confecção dos tijolos; a partir de então lhes caberia o esforço adicional de buscar a matéria-prima para cumprir suas cotas diárias. O não-cumprimento era punido com tortura física. Seu sofrimento tornara-se ainda mais insuportável e, ao ser questionado por Moshê, D'us responde: "Agora verás o que farei ao Faraó". Nosso profeta e toda a humanidade iriam testemunhar como o Eterno redimiria o Seu povo.
A pergunta, porém, permanece: Por que, ao invés de atingir os egípcios com um único golpe, D'us optou por um processo gradual e crescente? Por que foram necessárias Dez Pragas? Segundo nossos Sábios, são inúmeros os motivos. O Midrash revela que cada praga foi conseqüência direta de uma ação específica e equivalente mau-trato, tortura ou crueldade perpetrados pelos egípcios contra os Filhos de Israel. A Justiça Divina determinara que os egípcios deveriam ser punidos "medida por medida" pelas crueldades cometidas contra Seu Povo. Além do mais, a sucessão de pragas e os avisos que as precederam eram necessários para dar ao Faraó a oportunidade e o tempo de reconsiderar suas ações, arrependendo-se da crueldade perpetrada contra os judeus. Somente após o rei do Egito ter "endurecido seu coração" e, repetidamente, se recusado a libertar o povo judeu, as portas do arrependimento finalmente se fecharam. Maimônides explica que, às vezes, o castigo que D'us impõe a quem cometeu um grave pecado é privá-lo da possibilidade de se arrepender. Este é o significado da expressão usada na Torá, "Endurecerei o coração do Faraó".
As Dez Pragas formam um sistema coerente, de intensidade crescente. A cada recusa do Faraó em atender a ordem Divina de deixar Israel partir, uma nova calamidade se abate sobre o Egito. As primeiras nove são divididas em três séries, de três pragas cada, que se sucedem de acordo com um plano. Cada série aumenta em progressão em direção a um clímax, sendo que a última serve de prelúdio para a décima praga - a Morte dos Primogênitos. Em cada série D'us manifesta Seu poder, mudando o curso das leis da natureza em uma das três esferas da Criação - a terra, a atmosfera e os céus.
Segundo Rabi D. Isaac Abravanel, um dos objetivos das pragas era convencer o Faraó, seu povo e, conseqüentemente, toda a humanidade de três verdades fundamentais sobre D'us: Sua Existência, Sua Divina Providência - ou seja, que a Mão de D'us está presente em tudo o que acontece na vida dos homens e das nações - e Sua Onipotência. Por isto, a primeira praga de cada grupo é precedida por uma declaração que caracteriza um desses princípios.
A primeira série: sangue, rãs e piolhos
"Assim falou D'us: 'Nisto saberás que sou o Eterno'" (7:17). A afirmação indica que o objetivo da primeira série é estabelecer a inegável existência de um D'us Único, Criador Absoluto e Senhor do Universo.
A primeira praga atinge o Nilo - considerado pelos egípcios uma divindade. Rashi, o comentarista clássico da Torá, explica que, como havia escassez de chuvas no Egito, a principal fonte de água era este rio que, ao extravasar, irrigava a terra. Por isso os egípcios o consideravam a divindade responsável pelo seu sustento. Quando, seguindo a ordem Divina, Aharon golpeia o Nilo com seu cajado, não só suas águas, mas as de todo o Egito, transformam-se em sangue. A primeira praga veio para demonstrar aos egípcios que sua "divindade, o rio", não era capaz de deter a Vontade do Criador. O Midrash explica que, para os judeus, a transformação das águas do Nilo em sangue foi muito significativa, pois compreenderam que D'us estava punindo os egípcios por terem jogado nas águas daquele rio o sangue de seus filhos.
Pela segunda vez o Faraó se recusa a libertar Israel. D'us, então, ordena a Aharon que estenda novamente a mão sobre o Nilo. Rãs, cujo coaxar enchia os ares, emergem do rio e se multiplicam incessantemente, invadindo as casas egípcias. A segunda praga era a prova de que não só o Nilo não conseguira deter a Vontade do Criador, mas que, ao produzir as rãs, o próprio rio estava a Seu serviço.

As 10 pragasdo Egito 1

O episódio das Dez Pragas, chamadas em hebraico de Makot Mitzrayim, literalmente Pragas do Egito, relatado e elucidado na Hagadá de Pessach, consta no Livro do Êxodo. Numa primeira leitura, a aparente razão para tais calamidades foi a obstinada recusa do Faraó em obedecer a ordem do Eterno de libertar Israel. No entanto, se este fosse o único propósito, um único golpe devastador teria sido suficiente. Por que, então, D'us optou por dez calamidades? Porque, através das Dez Pragas, o Eterno demonstrou não apenas ser O Criador do Universo, mas Senhor Único e Absoluto dos Céus e da Terra, Juiz Supremo e Força Regente da Natureza. No Egito, a contundente revelação da Onipotência Divina fez com que mesmo os mais incrédulos entre os Filhos de Israel fossem obrigados a reconhecer o ilimitado Poder Divino. O principal objetivo das múltiplas pragas foi, portanto, demonstrar a Israel que D'us de seus ancestrais, D'us de Avraham, Yitzhak e Yaacov, é D'us Único, Senhor sobre a natureza e sobre as outras nações, e que não há outro além Dele.
As pragas serviram também como o grande castigo pela escravidão, tortura e campanha de genocídio perpetrada pelos egípcios contra o Povo Judeu. Mas a Torá não é um simples compêndio de história judaica e o judaísmo não permite celebrar o sofrimento alheio, ainda que seja o dos inimigos de Israel. As Dez Pragas são relatadas na Torá e na Hagadá não como celebração da Justiça Divina, mas como fonte de lições espirituais.
A Criação e as Dez Pragas
O primeiro dos Dez Mandamentos afirma: "Eu sou o Eterno, teu D'us, que te tirou do Egito da casa da escravidão", e não, "Eu sou o Eterno, teu D'us, que criou o universo". Explicam nossos Sábios que, através deste primeiro mandamento, D'us alerta os homens de que Ele não é apenas o Criador, mas está presente e profundamente envolvido em cada detalhe da vida de cada uma de suas criaturas.
O conceito do Criador do Universo é extremamente abstrato e a Criação é um dos grandes segredos do universo. O pouco que se sabe a respeito faz parte da Cabalá e vem sendo transmitido, de geração em geração, para uns poucos escolhidos entre os líderes espirituais do Povo Judeu. Em geral, o assunto é inacessível, mesmo aos mais eruditos. Já o episódio das Dez Pragas pode e deve ser aprendido por todos, inclusive as crianças. A razão é que, ainda mais do que a Criação, as Dez Pragas demonstram a Onipotência Divina em Suas diferentes manifestações.
E, se durante a Criação, somente o próprio Criador estava presente, quando dos acontecimentos no Egito, milhões de judeus e egípcios testemunharam e vivenciaram os milagres realizados por D'us. E para os mais céticos que não aceitam a Torá como a Palavra de D'us, há documentos egípcios e evidências históricas e arqueológicas que atestam as terríveis catástrofes que se abateram sobre o Egito, na época em que ocorreu o Êxodo.
No decorrer das Dez Pragas, o Eterno revelou Seu controle absoluto sobre a natureza. Utilizando-se de pragas naturais, manifestas, no entanto, de forma sobrenatural, demonstrou, que está simultaneamente na natureza e acima desta, pois Ele não é limitado por qualquer elemento de Sua criação. E, não foi simples coincidência o fato de ter optado por castigar o Egito com pragas relacionadas à natureza, pois, para os egípcios, o rio Nilo, os animais e o próprio Faraó eram considerados divindades. O Eterno quis demonstrar que nenhuma suposta divindade poderia deter Sua vontade, pois que cada elemento da natureza era Seu servo. D'us queria tirar dos judeus qualquer vestígio de paganismo porventura assimilado em sua longa permanência naquela terra. Além do mais, no Egito, idolatrava-se a matéria - a abundância e a fartura - e, ao transformar o Nilo em sangue, ao destruir as colheitas e os bens egípcios, D'us provou que a Terra inteira Lhe pertence e que tudo que o homem possui advém Daquele que a tudo criou.
Os castigos que se abateram sobre todo o Egito não atingiram os judeus que lá viviam ou a terra de Goshem onde habitavam. Ao fazer esta distinção entre o opressor e o oprimido, manifestou-se no mundo terreno a Justiça Divina. Foi revelado ao homem que todos seus atos têm conseqüências, sejam bons ou ruins. As pragas revelaram, também, o poder e eficácia da oração e da ligação com D'us, pois foram as orações de Moshê que puseram fim a cada uma das pestilências.

O Nascimento de Israel

Israel Bíblico

A questão não é: "Quanto Israel é religioso?", mas: "Quanto Israel é bíblico?"
Encontramos o fio da meada para a resposta em Ezequiel 37. Segundo a seqüência lá encontrada, primeiro os judeus retornam à sua terra como monte de "ossos secos" vindos da dispersão para Sião. Enfim de volta à terra de seus pais, "havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes, e se estendeu a pele sobre eles", isto é, os que voltaram para casa se tornaram um corpo nacional, o que começou a acontecer em 1948 com a fundação do Estado judeu. Só bem no final, como terceira e última etapa, o Espírito de Deus entrará neles. Só então, a sua posição de direito se transformará de fato na situação para que foram predestinados e que corresponde ao caráter que deveriam ter, ou seja, eles se tornarão em povo santo de Deus também na prática. Atualmente o corpo está se formando, o recipiente vazio toma forma, o que representa a condição para que possa receber dentro de si o Espírito de Deus. Nos exemplos a seguir podemos ver que o recipiente já vai assumindo formato bíblico:
O povo
Os judeus são em primeiro lugar um só povo. Não uma religião pela qual cada um se decide individualmente, mas um povo pelo qual Deus se decidiu. Pois como descendentes de Abraão, Isaque e Jacó foram escolhidos por Deus, sendo, portanto, um só povo por descendência. O fato dos escolhidos adorarem o Deus que os escolheu, a JHWH, é apenas uma conseqüência dessa eleição divina. Por exemplo, reconhece-se que os judeus são um só povo, por fazerem parte do povo de Deus inclusive aqueles judeus que não têm vínculo algum com a religião judaica. Nos quase 2.000 anos de diáspora (dispersão) entre todos os povos, os judeus continuaram isolados como um povo e sobreviveram a todas as ondas de perseguição. Assim Deus preservou os judeus como um povo – os religiosos e os não-religiosos – até aos dias de hoje. O Estado de Israel é, portanto, a continuação do povo bíblico, o que se mostra inclusive nos cohanin, os descendentes de Arão, que são os únicos a possuírem o gene YAP DYS19B.
A terra
"Tomar-vos-ei de entre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra. Habitareis na terra que eu dei a vossos pais. (Ez 36.24,28a). Quando, no começo do século, o movimento sionista enfrentou resistência em seus esforços de se estabelecer em Eretz Israel (a terra de Israel), surgiu a tentação de se criar o Estado judeu em Madagáscar ou em Uganda. Mas por esta não ser a pátria bíblica, esses planos resultaram em nada. Assim, o Estado de Israel surgiu, apesar de toda a oposição, nas terras bíblicas segundo as promessas divinas, e as novas aldeias e vilas foram sendo construídas em cima de ruínas de lugares bíblicos. Nisso se reconhece que Deus trouxe os judeus de volta para sua pátria bíblica.
A língua
A língua oficial de Israel é o hebraico bíblico enriquecido com vocábulos modernos e se chama "ivrit". Isso significa que hoje poderíamos conversar com o rei Davi, com o profeta Isaías e com o apóstolo Paulo. Elieser Ben-Yehuda (1858-1922) ressuscitou e deu nova vida ao hebraico bíblico, que, na Diáspora, era a linguagem usada na liturgia e na teologia. A língua hebraica se manteve em seu estado original e não se modificou com o passar do tempo como aconteceu com as outras línguas vivas (por exemplo, o grego) porque ficou hibernando por quase 2.000 anos e conservou-se igual ao hebraico bíblico original.
A moeda
Já há 2.000 anos a.C. o "shekel" (siclo) era uma moeda. Abraão pagou a caverna de Macpela com 400 siclos de prata (Gn 23). O siclo era a moeda para se pagar o tributo ao templo em Jerusalém. Em 1982, Israel reintroduziu essa moeda bíblica e passou a usar outra vez o siclo como moeda corrente.
A religião
Outras religiões se modificaram, reformas e contra-reformas adaptaram as religiões ao espírito de cada época. Com o judaísmo não foi assim. A religião judaica se ateve teimosamente aos preceitos da Bíblia. Nem o hebraico bíblico podia ser revisado, para se ter a garantia de que as normas e mandamentos religiosos oriundos da Bíblia, as orações, festas e rituais se mantivessem inalterados. Do sábado não se fez o domingo, os dias continuam a começar pelo anoitecer, a direção para se orar continua sendo Jerusalém. A circuncisão, o xale de oração, a trombeta de chifres tocada nas festas e os rolos da Torá escritos à mão continuam sendo os mesmos como nos tempos bíblicos.
A legislação
Apesar de Israel ser um Estado democrático moderno, sua legislação se baseia em fundamento bíblico. Assim, em Israel não existe casamento civil, só a cerimônia religiosa rabínica, segundo a qual os cohanin (descendentes de Arão) não podem casar com pessoas separadas. Contratos de arrendamento só têm validade por 49 anos, para que no 50º ano, que é ano de jubileu, tudo volte às mãos de seus proprietários originais. Soldados israelenses prestam juramento com a Bíblia sobre o peito e com a arma na mão. E ainda não existe uma Constituição em Israel. Desse modo, a lei bíblica continua sendo a instância máxima para a legislação em Israel.
Tudo em Israel...
...tem idade bíblica, mas isso não faz de Israel um museu. Ele é um dos países mais modernos do mundo. Em outros lugares se abandonam as tradições dos antepassados, mas em Israel existe uma volta à antiga Bíblia. Assim, Israel vai se tornando mais e mais um recipiente com formato bíblico para, algum dia, estar em condições de receber em si o Espírito de Deus (Ez 37 e Jr 31). Por enquanto Israel é bíblico apenas em sua forma exterior, mas interiormente ainda não, contudo todas as coisas têm a sua hora para acontecer.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Os dez significados do Alef-Bet

1. ConceitoO princípio conceitual subjacente associado com a letra.2. SignificadoO significado literal do nome da letra.
3. FormatoA associação visual primária relacionada ao formato das letras.
4. NúmeroO valor numérico da letra segundo calculado pela Guematria.
Correspondências básicas nas três dimensões de:5. EspaçoOs elementos físicos, os corpos celestiais e os signos do zodíaco.6. TempoAs estações, os dias da semana e os meses do ano.
7. AlmaOs membros e órgãos do corpo humano, responsáveis por mediar experiências relacionadas com o "eu".
Associados:8. Qualidade, dom ou sentidoExpressões inatas ou adquiridas de experiência vivida, controlada pelos membros acima e órgãos da alma.9. ArquétipoFiguras arquetípicas da história de Israel.
10. CanalOs canais horizontais, verticais e diagonais conectando as Dez Sefirot

Alef Beit : o Alfabeto Hebraico


O alfabeto hebraico é composto de 22 letras, escritas da direita para a esquerda.

O alfabeto hebraico, também conhecido como Alef-Beit, é o utilizado para escrever o hebraico, que é uma língua semítica pertencente à família das línguas afro-asiáticas, mais falada em Israel.
O hebraico (Ivrit) é uma língua semítica pertencente à família das línguas afro-asiáticas. A Torá, que os crentes judeus ortodoxos consideram ter sido escrita na época de Moisés, foi redigida no hebraico dito "clássico".
Embora hoje em dia seja uma escrita impronunciável, portanto indecifrável, devido à não-existência de vogais no alfabeto hebraico clássico, os judeus têm-na sempre chamado de Lashon haKodesh ("A Língua Sagrada").
Por volta da primeira destruição de Jerusalém pelos Bbilónios em 586 a.C., o hebraico clássico foi substituído no uso diário pelo aramaico, tornando-se primariamente uma língua franca regional, tanto usada na liturgia, no estudo do Mishná (parte do Talmude) como também no comércio.
O hebraico renasceu como língua falada no final do século XIX / começo do século XX como o hebraico moderno, adoptando alguns elementos do árabe, ladino, Jiddisch, e outras línguas que acompanharam a Diáspora Judaica como língua falada pela maioria dos habitantes do Estado de Israel.

Pai Nosso em Hebraico





Avinu shebashamayim
yitkadesh shimcha,
tavo malchutecha,
yease retsoncha kebashamayim ken ba'aretz.
Et lechem chukenu ten lanu hayom,
uslach lanu al chataeinu,
kefi shesolchim gam anachnu lachot'im lanu.
Veal tevienu lijdei nisajon
ki im chaltzenu min hara.
Ki lecha hamamlacha hagvura
vehatif'eret leolmei olamim.
Amen.

 

O CAJADO DE MOISÉS

Um certo dia, Moisés passeava pelas propriedades do Faraó e, de repente,
ouviu um grito. Ao erguer a cabeça, viu um soldado egípcio agredindo com violência alguns escravos judeus. Moisés não pode suportar tal injustiça; jogou-se em cima do soldado para protegê-lo e, na fúria do momento, matou-o. O que fazer naquela situação?

Não podia voltar ao palácio. Seria condenado à morte. Com certeza, não havia refúgio para ele em todo o Egito.

Moisés resolveu, então, fugir. Ultrapassou vales, escondeu-se nas profundezas das montanhas até encontrar abrigo em Midian, na casa do sacerdote Jethro, que havia sido um dos conselheiros pes-soais do Faraó.

Jethro era um grande sábio: interpretava os astros, havia aprendido segredos da natureza e conseguia penetrar nas mentes chegando aos mais secretos pensamentos. Dizia-se que até o que não era revelado aos mortais vinha a ele com clareza.

O Faraó, sabendo de seus dons, havia pedido que se tornasse, mesmo que por pouco tempo, seu conselheiro pessoal. Foi assim que Moisés o conheceu.
Jethro deixou a corte por não concordar com o decreto do Faraó de escravizar os judeus. Porém como o servira durante bastante tempo, este deu-lhe o direito de escolher a sua recompensa antes de voltar ao seu país.

- "Tenho um longo caminho pela frente", disse Jethro. Dê-me, então, aquele velho cajado, aquele que se encontra perdido e jogado dentro do palácio. Ele me permitirá caminhar com mais facilidade".

O pedido deixou o Faraó sem palavras, pois havia pensado que Jethro escolheria algo mais valioso: inimagináveis quantidades de ouro ou pedras preciosas, terras, palá-cios... Mas só pedira um cajado... Que então partisse com o seu pedido realizado. O Faraó resolveu atendê-lo imediatamente.

Porém, o cajado ao qual se referia Jethro, não era um simples pedaço de madeira. Jethro sabia muito bem disso e sabia mais: o tal cajado provinha de um lugar muito especial: o Jardim de Éden; mais precisamente, da Árvore do Conhecimento. D'us o criara no crepúsculo do primeiro Shabat do mundo.

Era feito em safira e tinha gravado nele o Nome Divino e as 10 letras hebraicas, as iniciais das dez pragas que no futuro iriam infestar o Egito.

Adão o havia recebido do Criador no Jardim do Éden. Quando morreu deu-o para Enoch. O cajado possuía uma virtude mágica: amenizava o cansaço e fazia o trabalho mais árduo parecer brincadeira de criança. Pertenceu a Noé, que o utilizou para medir a Arca na qual sobreviveu durante o dilúvio. Em seguida foi a vez do patriarca Abraão, que o herdou. Serviu também a seu filho Isaac e logo a seu descendente, Jacob. Este, ao ir para o Egito, levou o cajado consigo deixando-o como herança a seu amado filho José. Quando este último morreu, todas suas propriedades passaram a pertencer ao Faraó. O Faraó ordenou que lhe fosse trazido o cajado. Desconfiava que não fosse um simples pedaço de madeira. Mas, por mais que o Faraó tentasse dar-lhe ordens, nada acontecia. Decepcionado, mandou que o deixassem dentre os tesouros do palácio; lá ficou encostado por vários anos, até que Jethro o pediu como recompensa

De volta à sua casa em Midian, Jethro decidiu plantar o cajado no seu jardim. No momento em que o encostou à terra para cavar, o cajado encolheu-se estranhamente, como se tivesse voltado a seu estado de raiz. Efeito raro e estranho, posto que nada crescera dessa raiz, nenhuma folha, flor ou fruto.

Jethro tentou plantá-lo de novo, mas não conseguiu arrancá-lo do solo. Resolveu deixar o cajado onde estava.

O sacerdote era pai de sete filhas. Uma dela era chamada Tzipora, o que significa "pequeno pássaro". Tudo em Tzipora era bonito, seu sorriso, sua energia, sua afável essência. Não se passava um dia sequer sem que ela fosse pedida em casamento. Jovens e velhos, ricos e pobres ofereciam-lhe de tudo para consegui-la como esposa. Mas ela repetia: "Eu pertenço a quem conseguir tirar este cajado da terra. Quem o conseguir será o meu futuro marido e ninguém mais".

Ela era também uma moça muito sábia. Seu pai já lhe havia ensinado muitas coisas. Dentre estas a de que o cajado só responderia àquela pessoa que D'us escolhera. Centenas de mãos já haviam tentado arrancar o cajado. Mas ninguém havia conseguido sequer movê-lo para o lado. O cajado estava encravado na terra, como se sua raiz estivesse grudada ao outro lado do solo. Estava esperando...

Ao chegar em Midian, Moisés conheceu Tzipora perto de uma fonte onde ela e suas irmãs estavam tentando dar águas a seu rebanho. Moisés as ajudou afastando os pastores que as estavam pertubando.

A jovem se encantou com aquele homem tão bonito e bondoso e sempre que podia, dava um jeito de encontrar-se com ele. Entretanto, o avô de Tzipora, Reuel, soube que Moisés estava fugindo do Faraó e decretou sua prisão. Moisés acabou preso e jogado na prisão. Durante 10 anos, Tzipora secre-tamente levava-lhe comida. A vontade dela era que Moisés fosse o escolhido de D'us. Assim ficariam juntos para sempre.

Moisés foi finalmente libertado, e foi até um dos jardins para agradecer a Hashem por tê-lo poupado. Assim que entrou no jardim, viu o cajado. Logo, observou que o nome de D'us estava gravado em sua ponta. Soube imediatamente que pertencia a seu povo. Segurou-o e, ao usar o Nome Divino, a poderosa força que o mantinha encravado no solo esvaneceu-se e Moisés retirou-o facilmente da terra.

Jethro imediatamente soube que Moisés ia ser o libertador dos judeus e o convidou a ficar. Ao virar-se, Moisés viu que Tzipora estava do seu lado. Aproximou-se e tomou-a em seus braços.
Alguns dias depois, o casamento foi celebrado. Moisés, feliz, disse: "D'us me mandou Tzipora e o poder do cajado para que eu consiga salvar o meu povo".

E foi o que aconteceu. Na mão de Moisés o cajado cumpriu a tarefa que lhe fora destinada, conforme a vontade de D'us: ajudou Moisés e Aarão a salvar o seu povo da escravidão do Egito. Foi com este cajado nas mãos que Moisés, seguindo a ordem de D'us, realizou os milagres no Egito perante o Faraó e os filhos de Israel.

Baseado no conto "Le bâton de Moïse", Legendes et Contes, Contes Juift, Gründ.

A contínua criação do mundo

Nós, seres humanos, temos a impressão errônea de que somos criadores. Na verdade, nada criamos; simplesmente moldamos ou transformamos algo em outro algo. Um escultor, por exemplo, não cria sua escultura - ele a modela, com gesso ou outro material. Mesmo um escritor que componha uma história original necessita da matéria física, ou seja, papel e tinta, para gravar seu trabalho. E apenas pelo fato de ter a matéria física, o trabalho do escritor permanece após ser finalizado.
Tudo na criação humana é iniciado a partir de um original. Há uma única exceção, o pensamento. Em nossa mente, temos o poder da imaginação, criando assim coisas ou pessoas ou situações inexistentes anteriormente e sem substância física. As crianças, por exemplo, costumam criar na mente amigos imaginários - chegando, mesmo, a lhes atribuir nomes e com eles "conversar". Contrastando com outras criações do homem, o pensamento, criado a partir do nada, jamais se torna independente de seu criador. Um conto publicado pode sobreviver a seu autor, mas se um escritor apenas criar o conto em sua imaginação, este deixará de existir no instante em que ele mudar de pensamento. E se ele se esquecer do mesmo, jamais voltando a pensar no assunto, tal história jamais terá existido.
Antes da criação do mundo, não havia nada além de D'us. O Criador não modelou o universo a partir de um original, pré-existente, já que não existia absolutamente nada. Como D'us criou tudo a partir do nada, a criação não pode ser comparada à modelagem de uma estátua ou à escrita de uma conto - que são criados a partir de uma matéria física, mas apenas aos pensamentos da mente humana, criados a partir do nada. Em sua essência, é isto o que é o nosso universo: o conjunto dos pensamentos de D'us.
Falando por metáforas, Ele pensou e tudo se criou. D'us continua a pensar sobre sua criação e esta continua a existir. E como a criação é a mudança do nada em algo, há que haver alguma força que garanta que tudo não volte à forma original de inexistência. Em termos científicos, poder-se-ia dizer que a criação é a força incessante que se opõe à entropia. Para que o mundo continue a existir, D'us precisa continuar com o pensamento no mundo - a dizer, Ele precisa estar constantemente recriando-o, sem parar; de outra forma, tudo reverteria ao nada, onde tudo se originou.
O ato da criação, portanto, não foi um evento único, de uma única vez; é um evento contínuo e incessante. Esta é a razão pela qual todas as manhãs, em nossas orações, louvamos D'us por ser Aquele "que, em sua bondade, renova dia após dia, continuamente, a obra da criação". Contudo, como tudo está constantemente sendo criado do nada, o mundo pode, a qualquer momento, reverter ao nada, seu estado inicial. D'us não precisa inundar novamente o mundo para se livrar da humanidade. Basta que Ele pare de pensar no homem. À luz disto, o Talmud ensina que se em um momento qualquer, em algum ponto da Terra, não houver ao menos um judeu estudando a Torá, D'us perderia o interesse na criação e todo o universo súbita e instantaneamente deixaria de existir.
Criação contínua significa que D'us está constantemente pensando em tudo e em todos; nada, portanto, escapando ao Seu escrutínio. A existência de qualquer ser - um micróbio, um ser humano ou uma galáxia - está sob Seu constante domínio. Nada pode existir ou ocorrer sem Sua Presença. Como está escrito na Torá, "pois que Ele é nossa própria vida" (Deut., 30: 20). A criação constante nos ensina que Ele não é apenas Quem dá a vida, mas Ele é a nossa vida. É fundamental ter isso bem claro para se entender a unicidade de D'us. Há quem acredite que D'us criou o mundo e o afastou de Si; é a teoria filosófica intitulada Deísmo. Outros acreditam que D'us apenas intervém no mundo esporadicamente, através da realização de um milagre. Tais noções - a de que existe um mundo e de que há um D'us e ambos interagem ou não interagem - são falsas. O mundo não é uma realidade absoluta; somente D'us o é. Pois, assim como os pensamentos residem na mente de uma pessoa, o mundo reside em D'us. E é por isso que D'us conhece tudo o que transpira no universo - não porque Ele invade nossa mente e nosso domínio individual - mas porque nós residimos dentro d'Ele. Assim sendo, nada do que pensamos ou fazemos Lhe é desconhecido. Afirmar que D'us não percebe ou não se importa se a pessoa diz a bênção antes de comer ou se a pessoa destina uma doação para caridade, é, no mínimo, uma leviandade.
Na Torá que Ele compôs, D'us descreve Seu ato de criação como um produto de Sua fala, dos Dez Pronunciamentos Divinos. Esta metáfora da fala explica a criação na forma da Revelação Divina. Assim como as palavras de uma pessoa são reveladoras, a "fala" Divina implica que o mundo emanou d'Ele e que a criação realmente aconteceu. Mas tal metáfora tem limitações - como o têm todas as demais usadas para descrever D'us e Seus Atos - pois quando uma pessoa fala, as palavras emanam de seu íntimo. Há um orador e um discurso. Este, uma vez pronunciado, deixa o domínio do orador, não podendo ser revertido. Mas, em se tratando de D'us, não há nada fora de Seu domínio. Como D'us é Infinito, assim como tudo o que existe dentro d'Ele, Sua fala, contrariamente à do homem, nunca o abandona. Neste sentido, é mais preciso comparar a criação Divina do mundo aos pensamentos de uma pessoa que nunca são exteriorizados. Resumindo, a Criação tem elementos que são comparáveis à fala e ao pensamento do homem. Como a fala, a Criação é uma forma de revelação e expressão; como o pensamento, nunca abandona o domínio de um ser. Isto significa que os Dez Pronunciamentos Divinos resultaram na criação do universo, mas isso não é, de forma alguma, apartado ou independente de D'us.

ÉTICA JUDAICA

As revoluções na informática, robótica, micro-eletrônica, biotecnologia, genética, comunicações e outros campos têm criado possibilidades econômicas inéditas.

Ao mesmo tempo, 30 mil crianças morrem diariamente devido à miséria, 800 milhões de pessoas estão desnutridas, 3 bilhões são pobres.

A polarização social tem alcançado índices absurdos. As três pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio maior que o produto bruto dos 49 países mais pobres. A América Latina, região de excepcional potencial econômico, rica em matérias-primas estratégicas, fontes de energia baratas e terras muito férteis, é vista hoje como a terra da pobreza e desigualdade. Sessenta por cento das crianças são pobres, 36% dos menores de 2 anos estão desnutridos, 1/3 da população não tem água potável.

Junto a estes paradoxos extremamente impactantes, a sensação que o grande filósofo canadense Charles Taylor denomina de “o desencanto do mundo” se espalha entre as novas gerações. A atual sociedade consumista, voltada aos bens materiais, à concorrência feroz para alcançar melhores posições, à luta pelo dinheiro e poder, gera uma sensação de solidão, que Victor Frankl chamou de um dramático “vácuo dos sentidos”.

As respostas a estes graves problemas não parecem claras. Cresce o ceticismo sobre até onde pode chegar uma globalização repleta de oportunidades tecnológicas, mas totalmente carente de um código ético que a oriente.

Neste contexto, as propostas da ética judaica estão tendo valor crescente como referência e orientação. Muitas delas estão sendo retomadas com vigor por organismos internacionais, ONGs e movimentos que visam um mundo melhor. Vejamos resumidamente o atual impacto de algumas destas propostas:

n Um princípio básico da mensagem moral transmitido por D’us ao povo judeu é o de que somos responsáveis uns pelos outros. Para a ética judaica é proibida a indiferença ao sofrimento de outros. Diz-se no Levítico: “Não desconsideres o sangue de teu próximo” (19:16). Nossa época carateriza-se por altas doses de egoísmo, daqueles que têm face aos que não têm, e de insensibilidade. O secretário geral da ONU, Kofi Anan, ao exigir recentemente que o mundo supere a indiferença diante da morte de 22 milhões de pessoas nos últimos anos por Aids, determinou que é imprescindível voltarmos a ser responsáveis uns pelos outros.

• Para a ética judaica, a pobreza não é um problema apenas dos pobres, mas de todos. Leibowitz observa que os profetas dizem “Não haverá pobres entre vós”. Não estão dizendo o que irá acontecer, mas o que deveria acontecer. Sua voz não é de oráculo, senão de exigência moral. Para que não haja pobres, a sociedade deve tomar algumas medidas. Diante daqueles que, na América Latina, atribuem a pobreza dos pobres a eles mesmos, o judaísmo se revolta porque considera tal atitude uma injustiça. Esta mensagem foi recentemente incorporada à Carta dos Direitos Humanos da ONU. Entre estes, foram incluídos os direitos básicos do homem a não ser pobre, à alimentação, à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia entre outros. A partir de agora estes são direitos essenciais do ser humano, embora proclamados há milênios pela ética judaica.

• As grandes desigualdades são severamente censuradas pelo judaísmo. Os profetas questionaram-nas implacavelmente e julgaram moralmente os poderosos que as fomentavam. O judaísmo criou uma institucionalidade completa para prevenir as polarizações sociais. A Torá estabelece que a cada 7 anos a terra deve descansar para que os pobres possam aceder a seus frutos. A cada 50 anos a terra deve retornar a seus proprietários originais. Procura-se assim impedir sua monopolização. É o jubileu. Assim mesmo, a cada 7 anos as dívidas devem ser perdoadas. O grande movimento mundial vigente pelo perdão total ou parcial da dívida dos países mais pobres do mundo, encabeçado pelo Papa João Paulo II, apoiou-se nesta mensagem e intitula-se “Movimento do Jubileu”.

• Em recente pesquisa realizada pelo Banco Mundial, 60 mil pobres de todos os continentes disseram que o que mais lhes dói é o desprezo, o fato de serem tratados como pessoas inferiores por serem pobres. A Torá estabelece o mais absoluto respeito pelo pobre. É idêntico aos outros. D’us se preocupa especialmente por ele e exige este respeito. O Rabino Leo Baeck observa que no idioma hebraico não existe a palavra mendigo, por si só pejorativa. Esta determinação de se escutar e respeitar o pobre está sendo um eixo para a ação dos organismos internacionais.

• Como ajudar o desfavorecido? Este tema, discussão permanente nos organismos internacionais, foi analisado por Maimônides no século XII aplicado à ética judaica. O genial sábio identificou oito níveis sobre “a ajuda”. O nível inferior é quando ajuda-se alguém de má vontade. A segunda categoria é quando aquele que ajuda e aquele que recebe desconhecem um ao outro; neste momento, o anonimato que protege a dignidade do pobre é completo. No entanto, o nível mais alto de todos, a melhor ajuda que alguém possa dar, é aquela que fará com que o necessitado não volte mais a precisar dela. Hoje, na ONU e nos principais organismos em prol do desenvolvimento, procura-se que os projetos tenham orientação no sentido de que haja sempre esta auto-sustentação enfatizada por Maimônides.

• Na ética judaica, ajudar os outros é um dever imprescindível. Como tal, não merece nenhum prêmio nem reconhecimento. O Rebe de Lubavitch observa que a ajuda deve ser desinteressada, não se deve esperar nada em troca e, exemplificando isto, destaca que no dia mais sagrado do judaísmo, o Dia do Perdão, nas orações sefaraditas pede-se perdão à D’us não só pelos prejuízos causados ao próximo, mas também pelos atos que não foram feitos desinteressadamente. O Rabino Abraham Y. Heschel diz que ajudar é simplesmente “o modo de viver correto”. O prêmio está em viver-se desta forma. A força destes conceitos no judaísmo, seu contínuo ensinamento no âmbito familiar e na escola judaica assentaram as bases para grandes resultados em matéria de trabalho voluntário. Os países estão tentando dar forças ao voluntariado e vêem com crescente interesse os bons resultados. Israel e as comunidades judaicas têm índices recordes de trabalhadores voluntários. Em Israel, 25% da população pratica trabalho voluntário, produzem principalmente bens e serviços sociais que representam 8% do PNB. Exércitos de voluntários, de diferentes comunidades judaicas do mundo, trabalham diariamente levando adiante suas instituições e programas em proporção superior às médias de seus respectivos países. A conclusão é clara: a possibilidade de desenvolver o voluntariado está ligada à interiorização dos valores éticos pelas pessoas.

• Hoje vemos duas instituições fundamentais do judaísmo que são bases da sociedade: a família e a educação. O judaísmo lhes assegura o mais alto valor. A Torá dá especial destaque. A ética judaica zela vigorosamente pelas relações entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e até sogros, genros e noras. O Rabi Yoshua Ben Gamla criou no ano 69 a primeira escola pública de que se tem referência. Hoje, muitos países estão analisando como fortalecer a família, duramente deteriorada, e gerar educação. O judaísmo tem contribuições muito expressivas para oferecer nestes campos.

• Nas sociedades latino-americanas, entre outras, adota-se com frequência políticas que sabidamente irão significar grande sofrimento para a população, com o argumento de que “o fim justifica os meios” e que são necessários para que haja maior crescimento econômico. A ética judaica não aceita tal raciocínio. Na Torá pode-se ler textualmente que “o fim não santifica os meios”. Refletindo sobre esta diferença, Albert Einstein perguntava “Quem havia sido o melhor condutor dos homens, Maquiavel (autor original do princípio de que o fim justifica os meios) ou Moisés? Quem teria dúvidas sobre a resposta?”

• Como encarar a pobreza e a desigualdade na América Latina e no mundo? O judaísmo indica caminhos que ecoam de forma crescente. Para este, o problema deve ser encarado por uma ação conjunta de todos os agentes sociais. Cada um deles deve assumir suas responsabilidades. Necessita-se de políticas públicas muito ativas. O judaísmo criou a primeira legislação fiscal sistemática para uso coletivo, o dízimo. Por outro lado, a comunidade e a sociedade civil devem organizar-se e agir. E, finalmente, tudo isso não exime cada pessoa de individualmente fazer o correto em cada situação de miséria ou injustiça com que se depare.

• Uma idéia central do judaísmo é a de Tikum Olam – ajudar a consertar o mundo. O Rebe de Lubavitch faz menção a uma simples interpretação de um conhecido episódio bíblico. Depois de sair do Egito e atravessar o deserto, quando os judeus se aproximam de Canaã, Moisés envia 12 exploradores. Ao regressarem, 9 deles desestimulam as pessoas, dizendo-lhes que não continuem. Com freqüência são considerados traidores. O Rebe observa que Moisés escolheu os melhores de cada tribo, eram pessoas excelentes; porque iriam ser desleais? O que ocorreu é que encontraram-se com sociedades perdidas na luxúria, corrupção e idolatria. O povo judeu, no deserto, era em contrapartida um povo espiritual entregado ao estudo da Bíblia. Temiam que seguindo para Canaã pudessem ser contaminados. Mas, se equivocaram disse o Rebe, pois o desejo de D’us era diferente. O que D’us queria não era que se recolhessem para conservar sua pureza e sim que levassem a espiritualidade aos mundanos, que difundissem os valores éticos nas sociedades infestadas de vícios. Em uma época como a nossa, em que tantas ideologias tombaram, a proposta do judaísmo de avançar até que o mundo se redima eticamente – e de que não é permitido ficar à deriva, mas sim agir para transformá-lo e lhe dar valores éticos – prevê grande duração e diz muito a todos os homens e mulheres empenhados em uma humanidade melhor.

A ética judaica está viva e fresca, podendo ajudar a enfrentar o “desencanto do mundo”, o “vácuo dos sentidos” e a inadiável conscientização dos paradoxos da grande pobreza em meio à riqueza potencial que particularizam a América Latina e o mundo. A mensagem deste conjunto ético foi dita pelo sábio do Século I, Hillel: “Se eu não for por mim, quem o será?” significa dizer que todos devemos defender nossa saúde, nossa vida, nossa família; somos insubstituíveis nisto. Mas, acrescentou: “E se eu for somente para mim?”, significando que a vida sem solidariedade, responsabilidade pelo destino de outrem, amor ao próximo, transcedência, não faz sentido. Finalizou: “Se não agora, quando?” O que espera a ética judaica de cada um de nós é que entremos em ação, agora!

Bernardo Kliksberg é presidente da Comissão de Desenvolvimento Humano do Congresso Judaico Latino-americano; assessor da ONU, OIT, UNESCO, UNICEF entre outros organismos internacionais.