Nós, seres humanos, temos a impressão errônea de que somos criadores. Na verdade, nada criamos; simplesmente moldamos ou transformamos algo em outro algo. Um escultor, por exemplo, não cria sua escultura - ele a modela, com gesso ou outro material. Mesmo um escritor que componha uma história original necessita da matéria física, ou seja, papel e tinta, para gravar seu trabalho. E apenas pelo fato de ter a matéria física, o trabalho do escritor permanece após ser finalizado.
Tudo na criação humana é iniciado a partir de um original. Há uma única exceção, o pensamento. Em nossa mente, temos o poder da imaginação, criando assim coisas ou pessoas ou situações inexistentes anteriormente e sem substância física. As crianças, por exemplo, costumam criar na mente amigos imaginários - chegando, mesmo, a lhes atribuir nomes e com eles "conversar". Contrastando com outras criações do homem, o pensamento, criado a partir do nada, jamais se torna independente de seu criador. Um conto publicado pode sobreviver a seu autor, mas se um escritor apenas criar o conto em sua imaginação, este deixará de existir no instante em que ele mudar de pensamento. E se ele se esquecer do mesmo, jamais voltando a pensar no assunto, tal história jamais terá existido.
Antes da criação do mundo, não havia nada além de D'us. O Criador não modelou o universo a partir de um original, pré-existente, já que não existia absolutamente nada. Como D'us criou tudo a partir do nada, a criação não pode ser comparada à modelagem de uma estátua ou à escrita de uma conto - que são criados a partir de uma matéria física, mas apenas aos pensamentos da mente humana, criados a partir do nada. Em sua essência, é isto o que é o nosso universo: o conjunto dos pensamentos de D'us.
Falando por metáforas, Ele pensou e tudo se criou. D'us continua a pensar sobre sua criação e esta continua a existir. E como a criação é a mudança do nada em algo, há que haver alguma força que garanta que tudo não volte à forma original de inexistência. Em termos científicos, poder-se-ia dizer que a criação é a força incessante que se opõe à entropia. Para que o mundo continue a existir, D'us precisa continuar com o pensamento no mundo - a dizer, Ele precisa estar constantemente recriando-o, sem parar; de outra forma, tudo reverteria ao nada, onde tudo se originou.
O ato da criação, portanto, não foi um evento único, de uma única vez; é um evento contínuo e incessante. Esta é a razão pela qual todas as manhãs, em nossas orações, louvamos D'us por ser Aquele "que, em sua bondade, renova dia após dia, continuamente, a obra da criação". Contudo, como tudo está constantemente sendo criado do nada, o mundo pode, a qualquer momento, reverter ao nada, seu estado inicial. D'us não precisa inundar novamente o mundo para se livrar da humanidade. Basta que Ele pare de pensar no homem. À luz disto, o Talmud ensina que se em um momento qualquer, em algum ponto da Terra, não houver ao menos um judeu estudando a Torá, D'us perderia o interesse na criação e todo o universo súbita e instantaneamente deixaria de existir.
Criação contínua significa que D'us está constantemente pensando em tudo e em todos; nada, portanto, escapando ao Seu escrutínio. A existência de qualquer ser - um micróbio, um ser humano ou uma galáxia - está sob Seu constante domínio. Nada pode existir ou ocorrer sem Sua Presença. Como está escrito na Torá, "pois que Ele é nossa própria vida" (Deut., 30: 20). A criação constante nos ensina que Ele não é apenas Quem dá a vida, mas Ele é a nossa vida. É fundamental ter isso bem claro para se entender a unicidade de D'us. Há quem acredite que D'us criou o mundo e o afastou de Si; é a teoria filosófica intitulada Deísmo. Outros acreditam que D'us apenas intervém no mundo esporadicamente, através da realização de um milagre. Tais noções - a de que existe um mundo e de que há um D'us e ambos interagem ou não interagem - são falsas. O mundo não é uma realidade absoluta; somente D'us o é. Pois, assim como os pensamentos residem na mente de uma pessoa, o mundo reside em D'us. E é por isso que D'us conhece tudo o que transpira no universo - não porque Ele invade nossa mente e nosso domínio individual - mas porque nós residimos dentro d'Ele. Assim sendo, nada do que pensamos ou fazemos Lhe é desconhecido. Afirmar que D'us não percebe ou não se importa se a pessoa diz a bênção antes de comer ou se a pessoa destina uma doação para caridade, é, no mínimo, uma leviandade.
Na Torá que Ele compôs, D'us descreve Seu ato de criação como um produto de Sua fala, dos Dez Pronunciamentos Divinos. Esta metáfora da fala explica a criação na forma da Revelação Divina. Assim como as palavras de uma pessoa são reveladoras, a "fala" Divina implica que o mundo emanou d'Ele e que a criação realmente aconteceu. Mas tal metáfora tem limitações - como o têm todas as demais usadas para descrever D'us e Seus Atos - pois quando uma pessoa fala, as palavras emanam de seu íntimo. Há um orador e um discurso. Este, uma vez pronunciado, deixa o domínio do orador, não podendo ser revertido. Mas, em se tratando de D'us, não há nada fora de Seu domínio. Como D'us é Infinito, assim como tudo o que existe dentro d'Ele, Sua fala, contrariamente à do homem, nunca o abandona. Neste sentido, é mais preciso comparar a criação Divina do mundo aos pensamentos de uma pessoa que nunca são exteriorizados. Resumindo, a Criação tem elementos que são comparáveis à fala e ao pensamento do homem. Como a fala, a Criação é uma forma de revelação e expressão; como o pensamento, nunca abandona o domínio de um ser. Isto significa que os Dez Pronunciamentos Divinos resultaram na criação do universo, mas isso não é, de forma alguma, apartado ou independente de D'us.
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